A crise no Brasil e politica ainda não dialogam

Brasília – Plenário do Senado tem a terceira sessão de discussão da PEC 55/2016. Essa emenda limita o aumento dos gastos públicos à variação da inflação anual (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

A crise no Brasil que estamos vivendo desde 2015 não é por acaso. É apenas o esgotamento do sistema.

A crise no Brasil não começou por acaso. E nem deveria ser por acaso. É uma crise que teve início muito antes do que poderíamos imaginar. Mas isso não acontece por acaso. Ela acontece por causa do esgotamento do sistema. O que temos de entender é como, quando, quem e por que as coisas chegaram a esse estágio de ingovernabilidade. Sem isso não temos como resolver nada.

Essa crise no Brasil tem um histórico de pelo menos 30 anos. Pelo menos se a gente considerar o período republicano atual, que se iniciou em 1985, os resquícios do sistema anterior ainda permaneceram. O Brasil voltou a democracia com uma relativa tranquilidade política mas um enorme problema na economia. Nada do que foi feito naquele momento parecia ter uma solução.

Essa solução viria chegar 9 anos depois. Só que os vícios que hoje contaminam e são parte da crise atual começaram ali. O Brasil fez uma transição com a democracia sem romper com o seu passado ditatorial, que era bem recente. 20 anos antes da redemocratização, o clima que se vivia no Brasil era bem semelhante ao atual, mudando apenas os personagens centrais e o contexto histórico. Lá na frente eu vou voltar a esse ponto outra vez.

Hoje, as coisas desandaram. E isso a gente não precisa de um especialista pra nos dizer. Em outro post, eu falei sobre a pós-verdade e como ela tem feito as crenças e convicções pessoais passarem por cima de fatos concretos. E isso não é algo irrelevante. Estamos vivendo em um momento onde a descrença com as instituições e as brigas entre poderes e o próprio impeachment nos deixaram em uma situação ingovernável. Independente de quem esteja ocupando o poder.

Todavia, a solução pra crise no Brasil é política. Não vai ser pela via judicial.

Hoje o principal conflito que tem imobilizado e aumentado ainda mais a crise no Brasil está entre o judiciário e a classe política. E é aqui que o perigo habita. Sabemos que a classe politica brasileira não é uma das mais exemplares do mundo. E se vimos a votação do impeachment em abril desse ano, vimos aquilo que não sabíamos sobre essa classe que hoje ocupa o congresso e o planalto.

Não, não vou falar minhas opiniões pessoais sobre o que eu acho dos deputados, senadores e do atual presidente. Acho que isso é algo que não cabe aqui. Aqui temos de entender que essa crise entre os poderes tem gerado uma instabilidade imensa por causa de ameaças de cada lado. A classe política vai, obviamente, querer se proteger. E o judiciário, do mesmo jeito. Cada um tem os seus interesses e os defendem.

Só que, no meio de tudo isso, está o povo. Sim, é clichê. Eu sei. Mas essa crise toda tem demonstrado o quanto os poderes estão distanciados do povo que os elegeu para estarem ali. E é por conta de todo esse descaso, projetos sem a menor noção ou visão de futuro, sem resultados práticos. Daí começaram as ocupações em escolas, greves e outra situações de conflito que os próprios políticos não conseguem entender ou não querem entender.

Entre a própria classe política não estamos tendo a menor união entre a oposição atual que, em toda a democracia, tem o papel de controlar as ações do governo e fiscalizá-lo. Estamos em um momento em que a própria oposição não se une. E os movimentos sociais – ou perto disso – agem de acordo com os interesses de quem estão torcendo. E isso tem a ver com outro problema que eu mencionei acima.

A política, seja à direita, seja à esquerda, parou no tempo.

Sim, parou no tempo. É isso mesmo. Hoje vemos uma direita que precisa usar de argumentos da época de polarização entre USA e URSS – guerra fria – para justificar posições que eles julgam comunistas. Não temos, hoje, uma direita liberal, de fato, como pregam em seus discursos. Não são liberais e nem pensam no liberalismo. Pensam apenas em uma guerra que não existe mais.

Estamos vivendo em um momento onde a descrença com as instituições e as brigas entre poderes e o próprio impeachment nos deixaram em uma situação ingovernável. Independente de quem esteja ocupando o poder.

 

E a esquerda também não avança. Hoje, muito do discurso de esquerda está em pensar na superação do sistema capitalista. Está longe de chegar, de fato, nos anseios da própria população. Não, não que a esquerda seja ruim. Não é. A esquerda e a direita são parte de qualquer sistema político. Mas não é assim que, hoje, a esquerda tem se comportado. Os anseios da população estão em questões bem mais práticas que ambos os espectros tem falhado em entender.

Mas é só pela política que essa crise hoje vai ser resolvida. Não há mais condições. O país está paralisado e imobilizado e quanto mais se acirra os avanços entre os poderes, mais as coisas se tornam ingovernáveis. Só que essa solução que todos anseiam e esperam não passa por prisões de políticos apenas. Passa pela própria política. É preciso por alguns limites.

E só a política pode prevalecer. São os políticos que governam. Não são os juízes. E depende da vontade dos políticos colocar um ponto final nessa situação inteira. Não podemos viver assim e não conseguiremos, assim, recuperar a economia e retomar o crescimento. A solução está na política. E é só por ela.

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Written by Israel Anderson

Jornalista por formação, cineasta por estudos e curioso por natureza. Internet por paixão.

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