Black friday e gastos desnecessários

Cuidado ao gastar o dinheiro que vc talvez não tenha

Não há como importar uma promoção feita nos USA pra cá e desconsiderar as suas principais características.

A Black Friday nos USA é uma promoção daquelas imperdíveis. É uma tradição anual lá há pelo menos uns 30 anos. E tem uma característica muito peculiar: por ser realizada em um período pré-natalino, quando acontece a renovação de estoques, as lojas costumam dar descontos de até 90%. Sim, o objetivo dessa liquidação anual de estoque por lá é justamente essa: livrar-se de estoque passado. Limpar prateleiras. Preparar o período natalino.

A Black Friday não tem esse nome por acaso: traduzido como “sexta negra”, é o dia em que literalmente as grandes redes abrem mão de lucro para conseguirem vender aquilo que não conseguiram vender em um ano. É por isso que, por lá, conseguem comprar modelos de eletrônicos, versões, etc, relativamente recentes ou pouco desatualizados. E produtos que ainda tem suporte de seus fabricantes.

Sim, isso parece familiar por aqui? Ao menos no que você pode ver aqui, no que chamam de Black Friday, não é o que acontece. Por aqui, a Black Friday virou, desde 2009, há 7 anos, o que chamamos de “black fraude”, na linguagem da internet. E, obviamente, isso acontece sem que muitos percebam. Especialmente quem não costuma ir ao mercado regularmente.

Quem não tem o costume de verificar preços, não nota essas mudanças. As vezes, elas são bem sutis. A ideia de importar a Black Friday surgiu em 2009 como uma forma de aquecer as vendas após um ano de crise. Mas, lá, as coisas já ficaram claras que não seriam iguais ou mesmo próximas ao seu original americano. Sete anos depois, essa temporada de vendas não decolou por aqui. E nem vai.

E existem motivos do por que ela não decola aqui. A principal delas é que não há estoque a ser renovado. Novembro não é um mês pra isso.

O Brasil tem um sistema muito diferente dos americanos. Aqui, não recebemos por semana ou temos salários baseados em semanas. Os salários do Brasil são pagos mensalmente. Não, não digo que receber por semana seja melhor que receber por mês, mas cada sistema tem a suas vantagens e desvantagens. No nosso sistema mensal, isso significa que no final do mês estamos praticamente sem ter dinheiro para gastar.

Diferente do que acontece por lá, quando recebemos tudo de uma vez, temos a tendencia de gastar tudo de uma vez. E isso é uma característica intrínseca ao próprio apelo consumista. E a Black Friday definitivamente não se encaixa no modelo de comércio brasileiro. Aliás, é só mais uma promoção como qualquer outra que os lojistas costumam fazer em final de semana ou em períodos de pagamento.

A Black Friday com o objetivo de aquecer as vendas pro natal não tem como pegar. Não há nenhuma novidade a ser lançada pelo natal, nem mesmo as prometidas por alguns fabricantes internacionais. A maior parte das novidades anunciadas por eles demoram meses para chegarem em solo brasileiro e por aqui demoram mais alguns meses para que tenham preço mais acessível do que em seus lançamentos.

Como não há o que ser renovado, não há o que queimar. As lojas, ao invés disso, preferem queimar estoques de 2 a 3 ou 4 anos atrás. Especialmente eletrônicos. E muitos compram produtos que não precisam por um preço alto sem terem o dinheiro pra isso. Só é mais um período de dívidas. Ou para fazer mais dívidas desnecessárias. O que muitos pensaram que economizaram agora, na verdade, só perderam dinheiro. Em várias lojas, inclusive, era claro que os descontos oferecidos não passavam longe dos que normalmente são dados em outros dias, mesmo no natal.

E é exatamente isso que muitos não enxergam na Black Friday aqui. Acabam comprando exatamente o que comprariam em qualquer outro dia pelo mesmo preço. Daí também vem o termo “tudo pela metade do dobro”.

E aí também fica claro que as coisas no Brasil tendem a serem desvirtuadas quando são inspiradas em modelos estrangeiros. Quase tudo no Brasil é desvirtuado de seus objetivos originais em uma tentativa de adaptação ao mercado local. E isso nem sempre funciona. As vezes, revelam fraudes bem sérias e lesivas ao consumidor.

A verdadeira black friday no Brasil sempre existiu e ela costumava ser o primeiro dia útil seguinte ao ano novo. Nessa data, os comerciantes fazem, de fato, liquidações para limpar estoques e renovar estoques que durarão o resto do ano. Deveriam valorizar o que já temos e não importar algo e fazer disso uma desonestidade ao bolso do trabalhador brasileiro.

Se você está tentado a comprar alguma coisa na black friday, pare. Espere um pouco. Novas oportunidades surgirão. E com preços bem melhores. Antes de comprar pensem se, de fato, precisam daquilo e se devem gastar dinheiro com algo que pode não ser tão útil assim pra você.

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Written by Israel Anderson

Jornalista por formação, cineasta por estudos e curioso por natureza. Internet por paixão.

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