Crises que atingem o governo federal

Brasília – Parlamentares comemoram a aprovação unânime do relatório do deputado Onyx Lorenzoni na Comissão Especial (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Num único dia, duas crises bateram forte o Planalto. E as duas são potencialmente devastadoras. Não são qualquer coisa.

E nesse tornado político que o Brasil se transformou em 2016 – ok, não que não fosse antes. Agora só está bem mais intensificado. E esse tornado de crises é bem mais devastador do que o que levou ao impeachment de Dilma Rousseff. Essas duas crises acontecem em um momento crucial pro próprio país e num momento onde a discussão da moralidade pública domina a pauta política.

E é nesse debate que encontramos a raiz de todo o problema atual que caminha para a queda do atual presidente, Michel Temer. Sim, podemos até achar que isso não era algo grave no começo. Aliás, a própria imprensa não deu muita importância a isso no começo. Mas intensificou esses últimos dias quando começaram a votar o pacote anti-corrupção proposto pelo Ministério Público Federal, as tais “10 medidas contra a corrupção”.

Parecia um projeto até simples e corriqueiro. Até inventarem de colocar nele duas medidas: uma que criminaliza o Caixa 2 e outra que anistia quem o tenha cometido até a data de publicação da lei. Essas duas medidas azedaram o clima entre o governo, congresso e o judiciário. Justamente os que analisam e investigam os crimes que formam o escopo da Operação Lava Jato.  A que investiga a própria classe política.

Sim, essas duas medidas esvaziam a operação. Sim, ela expõe os níveis de imoralidade da classe política.Sim, elas são de interesse do Planalto. E é por isso que é preciso expor a própria classe política para saber quem está por trás dessas duas crises. Essas crises com essas duas medidas são as que conseguiram azedar a complacência que a própria imprensa vinha tendo com o atual governo e o atual presidente. E essas duas medidas são apenas a ponta do iceberg.

A maior crise vai além da anistia ao caixa 2. Soma-se à ela e cria outra enorme por que atingem, diretamente, o próprio presidente.

E essas crises tem um efeito devastador sobre o próprio presidente. Não é qualquer coisa. Estamos falando de um presidente cujo secretário executivo tentava usar a influência do governo para obter um benefício pessoal. Nessa quinta, o nome de Marcelo Calero, o ex-ministro da Cultura e responsável diretamente pelo IPHAN, se tornou viral no Twitter por causa de seu depoimento à PF E é esse órgão técnico que se tornou o centro desse tornado.

Na semana passada, Calero demitiu-se do governo alegando estar sendo pressionado pelo secretário de governo de Temer, Geddel Vieira Lima. O pivô do problema era a liberação de licença para a construção de um prédio de luxo no centro histórico de Salvador, na Bahia. A história, você sabe bem o que acontece: usar o governo e a influência dele para conseguir o que ele pretendia.

Uma semana depois, porém, as coisas mudaram e a situação piorou para o próprio governo após Calero depor na Polícia Federal. O depoimento dele revelou que o próprio governo mobilizou a estrutura para viabilizar uma solução para liberar a obra do prédio em Salvador e, nisso, estava o motivo de sua demissão do governo. Ao usar a estrutura de governo, houve aí um crime de tráfico de influência. E isso, de fato, é um motivo muito mais forte para um impeachment. A PF também confirmou que haviam gravações sobre esse caso feitas clandestinamente por Calero para proteger-se.

Junte as duas crises e mais uma ameaça de cassação e temos a verdadeira ameaça ao atual presidente: sua iminente queda.

As duas crises mostram que o impeachment não foi capaz de resolver o que a gerou. Já falei disso em outro post. Essas duas crises revelam claramente que há uma tentativa de interferência de poderes como forma de parar uma investigação e obter vantagens pessoais por influência. Isso é um problema bem mais sério do que se esperava e isso é muito grave.

É mais que grave, é gravíssimo. E só corrobora com a ideia de que vem aí mais um impeachment ou uma cassação. Não tínhamos como imaginar onde isso daria em 2014. E ainda não sabemos onde isso vai dar em 2017. E ainda temos um mês. E isso pode mudar tudo. Nas redes sociais, por sinal, já iniciam as convocações para protestos que podem levar a um resultado bem conhecido…

 

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Written by Israel Anderson

Jornalista por formação, cineasta por estudos e curioso por natureza. Internet por paixão.

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