Caráter é uma qualidade importantíssima. Pena que muito esquecida.

 

Desde setembro tem rolado na MTV Brasil – hoje canal por assinatura – a versão brasileira da série americana Catfish. Pra quem não sabe, é uma série sobre pessoas que escondem suas identidades na internet através de fakes e envolvem-se em relacionamentos nem sempre saudáveis. Aliás, o mote da série americana e o spin-off brasileiro é justamente esse: investigar o que há por trás desses fakes.  E há uma coisa em comum em todos eles: o (ou a falta de) caráter das pessoas por trás dos fakes. É assustador.

Catfish é uma palavra em inglês que significa – literalmente – peixe-gato. É, de fato, o nome dado a uma espécie de peixe que por aqui nomeamos de bagre. É uma palavra, entretanto, que denota uma pessoa que se passa por outra na internet. As vezes, intencionalmente, as vezes sem maldades, apenas pra não se expor demais na internet, especialmente nas redes sociais. Aliás, é justamente nelas – e o Facebook é um dos campeões em citações na série – que o catfishing ocorre com maior frequência. No Brasil, talvez as pessoas associem isso com fakes, que é o mais comum, desde a época do finado Orkut.

Redes sociais, catfishing, caráter. Foto: Wilfred Iven

Redes sociais, catfishing, caráter.
Foto: Wilfred Iven/StockSnap

 

No Brasil, os casos começaram no Orkut em sua alta popularidade

 

No alto da popularidade do Orkut – que foi a primeira rede social que fez enorme sucesso em terras brasileiras – eram comuns esses casos serem reportados na mídia por aqui. Era o Catfishing, algo que não sabíamos ainda do que se tratava mas que, desde 2010, através do documentário sobre um rapaz que queria conhecer a pessoa com quem se relacionava online estreou nos cinemas. É interessante notar que tanto nos casos do Orkut quanto nos casos expostos no documentário e na série de TV é que muito dos envolvidos nessas relações apresentam uma enorme falta de caráter. De verdade mesmo.

O primeiro caso da versão brasileira é de uma moça que vive em Brasília. Ela relacionava-se com outro rapaz por um ano e alguns meses. Mas sempre que ele mesmo convidava pra sair, ele mesmo fugia. Era intrigante demais. Mas no decorrer do programa, vimos que tratava-se de um rapaz altamente inseguro de si que se escondia atrás de uma máscara religiosa (e, se entendi, evangélica) como forma de não ser descoberto. O mais triste de tudo é que, mesmo diante de todas as provas contra ele, ele negou completamente a existência do perfil fake criado por ele.

 

Catfishing – ou fakes – são as personalidades que gostaríamos de ser mas não somos

 

Eu entendo que um dos maiores problemas dos jovens – e até eu me incluo nisso – são os problemas de auto-estima e imagem. Sei bem que não é tão simples lidar com essas questões e, sobretudo, quando se é adolescente e criado dentro de um ambiente repressivo como o ambiente religioso. Prova indiretamente também que religião não forma caráter. O que forma caráter é a educação, é saber exatamente distinguir entre o certo e o errado. Julgamentos morais não devem ser contaminados por visões distorcidas da realidade implantadas pela religião ou ideologias políticas. Isso é algo que vem de uma base muito mais profunda.

A educação, hoje, tem sido deficiente em lidar com essas questões. A escola tem se tornado cada vez mais repressiva. E as reformas que se discutem atualmente no congresso não ajudam. Isso sem falar das medidas provisórias implantadas pelo atual governo brasileiro. E esse espaço tem sido ocupado cada vez mais pela mídia, religiões com visões fundamentalistas e distorcidas da realidade. É um ambiente propício para que a prática do catfishing – ou fakes como conhecemos no Brasil – seja relativamente comum.

Não é de se espantar que muitos catfishes descobertos tem no caráter a sua principal característica. Eu entendo que há uma enorme possibilidade das coisas na internet serem perigosas e entendo que devemos nos proteger. Mas não precisamos fazer isso mentindo sobre quem nós somos. Ou criando fakes de personalidades que gostaríamos de ser e não somos.

O caráter é uma qualidade importantíssima na personalidade de uma pessoa. É pelo caráter que sabemos se podemos confiar ou não em alguém. Seja para negócios ou relacionamentos. É nesse sentido que o programa revela que devemos aprender a avaliar melhor com quem nos relacionamos. E aprender a identificar essas qualidades básicas – mas essenciais – para o pleno desenvolvimento humano.

 

Comente com Facebook

Written by Israel Anderson

Jornalista por formação, cineasta por estudos e curioso por natureza. Internet por paixão.

Deixe uma resposta