Julgamentos passam por filtros

A falta de leitura nos leva a julgamentos errados

A menos que seja um caso claro e extremo, devemos ter cuidado em fazer julgamentos. As vezes criamos problemas por causa de conclusões precipitadas.

Sim, é um pouco recorrente eu falar sobre redes sociais. Eu vivo muito dentro delas, as vezes interagindo, as vezes apenas lendo. Hey, quem disse que a gente precisa falar sobre tudo o que acontece? Então, as redes tem um poder muito forte de influenciar opiniões mas também tem um enorme poder de bullying. E não dá pra fugir dos julgamentos que são recorrentes. Mas as vezes são muito mais por não ler ou entender o que está escrito.

E esse é o problema primordial da internet e das redes. É certo que hoje já temos mais recursos multimídia – como podcasts, vlogs, fotologs como o Instagram – mas a linguagem majoritária das redes sociais e da própria internet ainda é linguagem escrita. É pela palavra escrita que nos expressamos majoritariamente. E as palavras nem sempre são claras. As palavras enganam. E delas fazemos julgamentos errados sobre as pessoas.

A menos que alguém se declare sem usar nenhuma espécie de recurso linguístico para disfarçar ou deixar posicionamentos não muito claros, devemos ter cuidado pra não inferirmos posições ou conclusões precipitadas. Dia desses, novamente, eu passei por isso. Já to acostumado, quem se expressa majoritariamente pela língua escrita sabe que esse é um dos maiores problemas dela. Umas mais, outras menos.

Não me deixa preocupado o fato das pessoas lerem o que escrevemos ou de que interpretem as palavras do jeito que entendam. A interpretação de tudo o que falamos, lemos, escrevemos, ouvimos passam por vários filtros e esses filtros envolvem as nossas crenças, conhecimentos prévios, alfabetização, religião, posicionamentos políticos, contextos históricos e contemporâneos e por aí vai.

Os nossos julgamentos são baseados em vários filtros. Só devemos compreender que os nossos julgamentos não valem para todos e nem todos tem os mesmos filtros que nós temos.

Os nossos filtros dependem de vários fatores e características. As principais delas envolvem do básico – que é o nosso nível de alfabetização e uso da língua e seus recursos de forma plena. E o avançado – o uso de outros recursos expressivos que combinam a linguagem escrita e visual onde o sentido de uma está intrinsecamente ligado ao outro para a perfeita compreensão da mensagem.

Em comunicação temos vários estudos que buscam compreender como esse processo inteiro funciona e como a percepção de alguma mensagem acontece em seu destino final. É por essa necessidade de compreensão que os recursos audiovisuais são mais efetivos pois combinam a linguagem oral e visual. E as palavras, nessa combinação, são apenas uma parte do todo.

Mas aqui, em um texto escrito, isso não é assim. Nem todos os leitores leem um texto completamente. Sobretudo se ele é longo demais. E isso explica por que brasileiro lê muito pouco e compra poucos livros – sejam eles físicos, sejam digitais. Essa dificuldade de entendimento das várias nuances da língua escrita cria problemas onde não deveriam criar.

Eu resolvi explicar isso aqui por que recebi algumas mensagens achando que eu tinha defendido uma posição que obviamente eu não defendi. Mas usei de ironia e outros recursos linguísticos naturais a qualquer língua. E muitos dizem que nós não somos responsáveis pelo que as pessoas entendem. Em parte, sim, nós somos. Especialmente quando isso pode criar um problema que custe seu emprego, por exemplo.

É por isso que eu vou continuar insistindo em termos cuidado com os julgamentos das redes sociais. Eles podem ferir muito mais do que parecem.

E isso é extremamente comum dada a urgência das próprias redes. Quando demoramos a responder mensagens, quando optamos por usar outros meios de comunicação que sirvam aos nossos propósitos, etc. Não digo que devemos sempre usar vídeo ou fotos para explicar o que queremos. As imagens passam por todos os filtros que passam as palavras escritas, faladas, lidas e ouvidas.

Assim como expressar-se dubiamente pode criar esperanças em uma pessoa, inferir uma posição sem ter entendido o contexto e os próprios posicionamentos anteriores. É como eu disse em outro post sobre a urgência das redes sociais. Por causa disso não procuramos ler postagens anteriores, entender os contextos das mensagens ou mesmo se dar ao trabalho de usar a ferramenta de pesquisa.

Por isso mesmo, se você, usuário de redes sociais, que também passem por isso: antes de fazer julgamentos sobre qualquer um, entendam o que, de fato, a mensagem se propôs. Isso evitará muito problema. E não fique com vergonha de perguntar. Perguntas são exatamente pra sanar nossas dúvidas. Precisamos delas. Assim como precisamos usar outros recursos para que possamos, de fato, entender as mensagens de outras pessoas. Mesmo que elas não tenham os mesmos filtros que nós temos.

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Written by Israel Anderson

Jornalista por formação, cineasta por estudos e curioso por natureza. Internet por paixão.

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