Agora que já sabemos no que deu a eleição americana, vamos a umas considerações

1 – Trump, antes de ser candidato e presidente, era apresentador de televisão. Ele é um homem de mídia, ele sabe o que falar para conquistar multidões. Gostemos ou não dele, ele fez uma campanha baseada nos mesmos princípios que norteiam um programa de televisão como os que ele comandou;

2 – o discurso fascista que ele usou na campanha é algo que dificilmente será posto em prática. Aliás, ele tanto sabe disso que no mesmo discurso de vitória, ele baixou o tom. O máximo que ele pode fazer é dificultar o acesso de estrangeiros aos USA na concessão de vistos de permanência ou greencards e mesmo a regularização de estrangeiros ilegais, especialmente os latinos – cuja comunidade votou significativamente nele. A dificuldade de viver nos USA sempre existiu, independente de quem governe lá;

3 – A vitória de Trump consolida a tendência mundial de uma guinada à direita política. E, não, Hillary não é esquerda, antes que pensem isso. Esses conceitos são bem diluídos dentro da realidade americana. Por lá, ambos os partidos são de direita, mas um tem mais preocupação com o social e o outro, nem tanto. Trump representa a direita tradicional;

Donald Trump, presidente eleito dos USA

Trump em campanha eleitoral

A campanha de Hillary Clinton era fraca

4 – A campanha de Hillary Clinton errou em muita coisa. Mas o principal erro dela foi justamente os escândalos que Assange e Snowden revelaram sobre a atuação dela como secretária de estado e a fragilidade com o que essas informações – e não importa aqui se eram oficiais de governo ou pessoais dela – foram vazadas ao público. Isso é uma falha importante no sistema e que expôs a fragilidade dela;

5 – O discurso que, de fato, deu vitória a Trump não foi o discurso fascista. Esse serviu muito bem nos estados do Bible Belt, os estados ao sul dos USA. Trump teve vitórias significativas no norte dos USA, onde ficam as cidades industriais e as grandes indústrias americanas e onde o discurso de trazer os empregos de volta pra América foi forte. Hillary perdeu em redutos tidos como certos pelos Democratas;

6 – Internacionalmente, a vitória dela seria uma boa apenas para o ocidente. Hillary foi secretária de estado de 2009 a 2013, quando explodiram os conflitos atuais na Síria e na Líbia, sem falar o aumento expressivo do ISIS. Era nítido e claro que os líderes daquela região se negariam a negociar com ela, que, indiretamente, foi quem deu aquela forcinha pra que eles começassem. E, não, Trump não é pacifista. Trump é apenas a peça nova no tabuleiro, só isso;

O Sistema eleitoral americano dá margem pra essas coisas acontecerem

7 – o sistema americano é cheio de discrepâncias mas tem a legitimidade. Ele está inscrito na constituição americana e nada vai mudar isso. Nos USA, poucas foram as emendas feitas na constituição, por que, pra isso, o processo é absolutamente longo. E como foi um sistema criado pelos fundadores, ninguém ousa a mexer neles. Mesmo vencendo nos votos populares, Hillary falhou em vencer em estados-chave, os swing states. Esses estados, em peso, votaram com Trump, garantindo-lhe o colégio eleitoral;

8 – O que muda pra gente aqui? Nada. Os USA tem uma diplomacia que não depende diretamente de quem governa. Obviamente que quem governa influencia, mas a diplomacia americana tem um grau de independência que dificilmente será mudado. Aliás, vamos atentar para um pequeno grande e enorme detalhe: de 2009 até aqui, uma série de golpes aconteceram na AL, sendo o ultimo aqui no Brasil. Não, Obama não tem a ver com isso. Isso é apenas pra exemplificar como a diplomacia lá é mais independente;

9 – Em alguns estados-chave Hillary teve uma boa parte dos votos perdida para os 2 candidatos independentes. Em um deles, ela foi 3o. lugar. E, no geral, esses candidatos abocanharam uma parcela importante dos votos democratas, o que mostra ainda a fragilidade da campanha dela de ignorar os menores e se centrar em Trump. O eleitorado que ele conquistou foi surpreendente, mas não era tão imprevisível que ele os conseguisse. Como eu disse, Trump é um homem de mídia, ele sabe o que falar para conquistar público. Transferiu esse know-how para a campanha eleitoral dele;

Os USA são um país bem mais conservador do que aparentam

10 – A vitória dele também aponta que os USA são um país conservador, bem mais do que pensávamos. Sim, teve misoginia com relação a ela na campanha. Mas o fato dela não se explicar sobre os emails e tratar como se fosse algo resolvido quando isso não era resolvido foi um erro sem tamanho. O discurso de Trump de trazer empregos de volta para os USA é xenófobo sim. Aliás, foi o principal motivo do BrExit. Hillary se mostrou mais sensível a essas questões, mas não falou para o eleitorado americano o que ele queria ouvir;

11 – Gostemos ou não, Trump é o presidente americano pelos próximos 4 anos. Não, não acredito que ele vá fazer o que ele prometeu. Isso aí é algo sem chance. Não é a primeira vez que os USA elegeram uma celebridade como presidente, a ultima vez, foi Reagan em 1980. E vimos no que deu. Trump não deve ser muito diferente do que foi Reagan;

A vitória de Trump pouco afeta o Brasil e o quadro eleitoral aqui.

12 – Agora resta aos americanos aceitar o resultado e, se daqui a 4 anos não gostarem do governo Trump, removê-lo da presidência elegendo outro presidente. Isso só saberemos em 2021. Até lá tem muita coisa no caminho.

13 – E o fato de Trump vencer lá não significa que isso fortaleça Bolsonaro. Existe um abismo entre os dois. E discurso fascista por si só não é capaz de vencer. Se não tivermos outro golpe pra remover Temer e empossar um presidente indireto ou mesmo Aécio Neves, o próximo presidente do Brasil deve ser Geraldo Alckmin.

Comente com Facebook

Written by Israel Anderson

Jornalista por formação, cineasta por estudos e curioso por natureza. Internet por paixão.

Deixe uma resposta